Jose Antunes - fotografia

A visitação do ICNB

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Os fotógrafos portugueses estão lixados. Não lhes basta terem um ministro que prefere os de fora,  por cá organismos como o Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade querem cobrar-lhes 200 euros por dia no terreno. Dia de sete horas, dizem. E pelo que a tabela sugere, até fora das áreas naturais se vai ter de pagar ao ICNB... Por fotografar o quê? A Natureza? Um pardal no jardim público? Até andar a pé nos parques vai custar dinheiro. Talvez seja tempo de levantar a voz.

O alerta chegou-me de um conhecido fotógrafo de natureza nacional... que tem passado dias no terreno para conseguir imagens para um artigo que pretende escrever sobre uma área protegida nacional, convidando as pessoas a passarem por lá, a ficarem na zona, a respeitarem o ambiente. Tem neste momento mais de duas semanas de campo seguidas, o que dá qualquer coisa como 98 horas de fotografia nas contas do Instituto de Conservação da Natureza e Biodiversidade. Total da factura: 2800 euros. Fixe, meu... ou porreiro, pá. Só que este meu amigo vai conseguir que a revista para que está a fazer o tal artigo lhe pague, num bom dia, cerca de 500 euros (e acreditem que é bom, muito bom) pelo trabalho, o que o deixa deficitário. Acresce que o dia na óptica do ICNB é de sete horas, e o documento agora publicado não explica se, quando o fotógrafo fica no terreno mais tempo (imagine-se a espera num abrigo, que pode começar ainda na alvorada e acabar no final do dia...) tem de pagar horas suplementares. Se calhar a preço suplementar dado que é... trabalho extra. Tudo explicado numa "tabela de visitação" elaborada e publicada pelo ICNB.

A tabela do ICNB (desculpem mas não consigo colocar a folhinha entre as duas últimas letras...) tem ainda algumas outras notas alarmantes, sobre as quais não me quero alargar, mas que refiro para que o leitor as saiba e... medite. É que não se pode deixar de ficar a pensar o que querem dizer com o valor de 2.5 euros pago por pessoa para visitas a pé em áreas do ICNB, isto de semana, porque no fim-de-semana o preço sobe para 4 euros. Quer dizer que se eu por descuido puser pé numa área de reserva, parque ou coisa assim vou ter de pagar? No jogging matinal? No passeio com a família? E há bilhete familiar com desconto? E se fotografar, paga por meter o pé e fazer clic?

Se de facto vamos ter de começar a pagar para atravessar a pé áreas protegidas, é natural que as pessoas se sintam cada vez mais empurradas para as árvores de plástico dos centros comerciais, onde não pagam para circular. Escrevi sobre isto há muito tempo, em duas edições da revista Fotodigital, já na altura sem ter respostas do ICN (era assim então que se chamava, acho eu...) e agora a situação revela-se ainda mais complicada.

Ah... pronto, resta-nos fugir para outros sítios. Pois. De facto, começa a ser importante ter um bom mapa com todas as áreas do ICNB, para evitar passar por lá. Mas cuide-se quem for para a orla marítima, porque o documento do Instituto também refere que a fotografia na DPM (Domínio Público Marítimo) vai ser taxada. Ao mesmo preço. E para quem quiser ficar realmente preocupado eis que o documento sugere que o ICNB pode taxar até a fotografia (de Natureza, presumo) fora de terrenos do ICNB... a 100 euros por dia.

E para que ninguém se fique a rir, comem todos pela mesma bitola, quer se trate de filmagens, fotografia ou acções promocionais. Quer dizer: tanto o fotógrafo que quer registar os cogumelos no bosque como a equipa que vai filmar o novo carro da marca XPTO para uma grande campanha publicitária (e que para o fazer pisa dezenas de cogumelos...) pagam a mesmíssima coisa. O fotógrafo editorial, cujo trabalho até é muitas vezes usado para promover o local... que se calhar a equipa de filmagens do tal anúncio descobre no tal artigo, paga o mesmo. Esquecendo-se até que para a campanha publicitária foi chegar e filmar (sete horas de trabalho) dado que tudo estava definido de antemão, enquanto o fotógrafo, se calhar, voltou várias vezes, até encontrar o motivo com a cor e forma adequada... mas como fez várias visitas e fez ensaios fotográficos, paga mais.

Nunca se viu tamanha burrice, que só pode sair da cabeça de um qualquer manga-de-alpaca armado de compacta digital que pensa que a fotografia de natureza se faz num “apontar e disparar”. Ora do ICNB esperava-se mais do que uma medida administrativa que não tem ponta por onde se lhe pegue... a não ser que alguém tenha decidido usar os fotógrafos nacionais (os que mais depressa serão afectados) como vaca leiteira capaz de abastecer os cofres do Estado... de forma a pagarmos as custas da fotografia de promoção do País ao jeito das campanhas West Coast da Europa, do ministro Pinho.

O meu amigo fotógrafo (e já outros me telefonaram por causa deste tema ou por outras razões mas abordando o tema, irritados) está verdadeiramente preocupado com isto, até porque tem andado a desenvolver um longo trabalho fotográfico que agora pode tornar-se mais difícil de continuar.

Eu... já de há muito comecei a fugir das áreas sob tutela do ICNB (bem, agora que até a orla marítima querem já nem sei para onde irei...) porque nada me espanta: desde me proibiram de usar tripé em Sintra (alegando ser um acessório profissional), até me escorraçarem de Monserrate (atenção, isto começou na segunda metade da década de 90, portanto já não é de hoje...) as minhas aventuras com as sucessivas áreas protegidas que visito (visitava) são várias. O que é curioso porque a minha cobertura dessas áreas foi sempre feita visando a sua promoção, em publicações variadas, nos anos de 80 e 90: Diário de Notícias, Diário Popular, A Capital, Correio da Manhã, Crónica Ilustrada, Mais,  Sábado, Tempo Livre e um leque de outras. Até, veja-se, no Correio da Natureza, a revista existente na altura, propriedade do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, de que fui colaborador. E cujo director ao tempo, José Marques Moreira, chegou a acompanhar-me num percurso a pé numa das zonas sobre que escrevi, um passeio entre a Adraga e a Ursa, locais que percorria amiúde nos anos 80. Hoje se, calhar, até ele teria de pagar... ele que gostava de levar a Nikon dele e fotografar.

Na altura colaborava na revista um jornalista do Diário Popular ligado ao ambiente, Humberto Vasconcelos, que eu conhecia de quando, em 1986, organizei o Gabinete de Imprensa do primeiro Congresso Nacional das Florestas, da Sociedade Portuguesa de Ciências Florestais. O Humberto levou-me a conhecer melhor a aldeia da Palhota, uma das aldeias avieiras do Tejo, perto de uma outra área protegida, o Paul de Boquilobo. Foi em 1991, com o meu filho ainda de tenra idade, que dormi, num Inverno, na casa tradicional que o Humberto tinha na zona, sobre palafitas,  para resistir à subida da maré. Momentos únicos de contacto com a natureza e as aves na zona, fruto de uma viagem rio acima, rio abaixo que nos deixa saudades. Hoje, de novo, provavelmente vai ser preciso pagar para fazer tudo isso...

Note-se que eu nem discordo de pagamentos de algumas taxas que contribuam para a manutenção de áreas naturais. Mas parece-me que se torna necessário equacionar as coisas em função da realidade e não entrar no desvario que a actual tabela representa. Ninguém no ICNB percebe estas coisas? Ou querem tudo para eles? Parece-me existir alguma falta de capacidade de decisão... aliás reflectida também no próprio site do Instituto, que continua “em obras”, com sucessivas implementações que sugerem ninguém saber bem o que fazer daquilo. Será para pagar esse custo que agora decidiram “espremer” os fotógrafos?

Existem diferentes formas de fotografia para diferentes fins, e qualquer taxa deve ter isso em consideração: usar uma área protegida para fotografar um casamento, porque fica bem, talvez tenha de ser taxado de uma forma diferente do trabalho realizado por um fotógrafo que pretende somente fotografar o musgo que cobre as árvores. É da capacidade de entender tudo isso na busca de um bom relacionamento com os fotógrafos (e aqui penso nos fotógrafos de natureza, vida selvagem, paisagem) que exploram o lado editorial, muito diferente dos restantes. Se considerarmos que o mercado editorial da fotografia é miserável (e cada vez mais) é natural que quem se move nessa área da indústria tenha de revoltar-se contra estas situações. Se considerarmos que os fotógrafos que organizam passeios, workshops, oficinas, percursos, o que queiram chamar-lhes, já estão à sua maneira a contribuir para a promoção de uma área natural (se forem conscienciosos e se o mundo natural for o tema da sua fotografia)e que ao levarem pessoas a visitar regiões impulsionam o turismo, as actividades locais, então talvez se deva repensar as tabelas. Alguns desses fotógrafos fazem mais do que os administrativos que, sentados em gabinetes, em Lisboa, esboçam formas "artísticas" de aumentar as finanças do ICNB. Que por vezes não têm reflexo visível naquilo que realmente se devia defender.

Para facilitar a tarefa aos leitores deixo aqui links para a malfadada tabela (espero que não a mudem de URL) e ainda links para uma série de artigos internacionais sobre o tema, e sobre preços e opções em parques americanos, que permitem fazer comparações e tiar algumas ilações. Não, não estamos sós, a estupidez é generalizada... se bem que não em todos os locais e nem sempre com a mesma medida. Ah, sei que ao escrever isto vou ver-me ainda, provavelmente, mais limitado nas minhas andanças: vou acabar a fotografar papagaios de papel em montras de centros comerciais. Quem incomoda é por norma "silenciado". Mas não podia deixar passar em branco mais esta, que as pessoas comentam em voz baixa mas que, por diversas razões, acabam por "comer e calar".

Tabela do ICNB

depois da publicação do artigo a tabela do link acima foi mudada, provando que eu tinha razão. mas a emenda é pior do que o soneto. Leia os artigos aqui e na Fotodigital, onde encontra as duas tabelas, para comparar. A que está neste link aqui é a mais recente do ICNB. E talvez não seja a última)

Tabela Arches

Tabela de Canyonlands 

Tabela de Yellowstone

Artigo na Plenty

Artigo no LightroomNews

 

E o documento mais importante, que resume a postura dos parques americanos (os que mais facilmente se encontram como fonte documental na web.) Leia este documento e compare com a tabela nacional... Depois queixe-se. Saliento aqui um naco do texto que, calculo, se aplica a muitos dos fotógrafos de natureza, senão à totalidade.

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When is a permit needed?

All commercial filming activities taking place within a unit of the National Park system require a permit. Commercial filming includes capturing a moving image on film and video as well as sound recordings.

Still photographers require a permit when

1.      the activity takes place at location(s) where or when members of the public are generally not allowed; or

2.      the activity uses model(s), sets(s), or prop(s) that are not a part of the location’s natural or cultural resources or administrative facilities; or

3.      Park would incur additional administrative costs to monitor the activity. 

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