Jose Antunes - fotografia

Pior a emenda que o soneto

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
A minha nota sobre a incongruência da tabela do ICNB teve como consequência que logo no dia seguinte uma nova tabela estava no ar. Que, diga-se, em abono da verdade, não muda nada do que de mal foi feito. Ainda piora, se quisermos. Talvez seja chegada a altura de o ICNB sentar à mesa com os fotógrafos e debater o que se pode realmente fazer... se não quiser criar um clima de "gato escondido com rabo de fora" que em nada ajuda a Natureza.  A nova tabela do ICNB deixa cair o termo visitação que eu usei no título do meu artigo (de opinião, para que não me apontem com a norma jornalística de escutar os dois lados... é que eu fiz isso há cerca de dois anos e ainda não tive resposta... e comecei a fazer essa pergunta quanto tinha 45... e hoje tenho 55 anos. Escrevi na altura à direcção do ICNB e nunca me responderam). 

Pronto, agora que balizei o terreno, para não me atacarem o flanco, vamos a factos. A primeira tabela omitia a frase “quando associado a actividades económicas” que esta já apresenta. Quem quer que tenha elaborado o documento achou que assim estava bem. Bem, eu discordo. É que se assim é que está bem então na tabela anterior o ICBN tinha considerado que todo e qualquer tipo de fotografia, até para consumo próprio, tinha de pagar. O que é um sinal de que os técnicos do ICNB, se calhar, querem os parques só para eles, e empurram as pessoas para fotografarem noutro lado. É curioso que num tempo em que há cada vez mais equipamentos de registo fotográfico se assista a este tipo de situações... que até nas ruas começa a ganhar contornos perigosos, como se pode verificar na Grã-Bretanha por exemplo.

Mas aqui, e nos parques nacionais, as pessoas vão poder fotografar, desde que não estejam a praticar o acto em associação a uma actividade económica. Não sou conhecedor de leis mas parece-me que isto é meio vago: se um amador estiver a fazer uma série de fotografias de natureza para concorrer a um concurso, e depois ganhar o prémio, vai ser perseguido pelo ICNB para pagar pela tabela? E que dizer do biólogo que faz registos para o seu trabalho de campo mas depois os vende com um artigo para uma revista? Quem fiscaliza tudo isto? Como se pode garantir que a tabela é cumprida?

Ninguém deve saber bem como responder a estas questões. Afinal, a emenda da tabela nem sequer esconde que isto é um trabalho em cima do joelho. O documento original até era um pdf elaborado para um fim diferente. Trata-se de um “Formulário para Autorização de Observação de Cetáceos em Portugal Continental fora AP” criado por “bartolop” com uma ferramenta informática grátis chamada PrimoPDF.

O que realmente me preocupa nesta tabela é que ela continua a insistir em preços fora deste mundo e em misturar tudo num mesmo saco, como se o fotógrafo que se move neste tipo de ambientes por razões profissionais (ou não) fosse como outros fotógrafos.

É diferente um fotojornalista dos quadros de uma publicação passar numa área protegida e fotografar uma série de vistas para um trabalho de divulgação (pelas boas ou más razões) do trabalho que um fotógrafo de natureza (vida selvagem, paisagem, etc.) faz.

Este fica mais tempo, regressa, muitas vezes passa dias e horas a percorrer áreas sem fotografar. Acontece-me a mim, e nem sequer sou um fotógrafo de natureza a sério. Sou mais um apaixonado que se perde na contemplação da luz, da relação entre as coisas, por vezes dos pequenos nadas que concorrem para a grande imagem que outros tiram do local. O gafanhoto escondido no verde, o minúsculo cogumelo brotando do tronco velho e uma árvore, o raio de sol escorrendo entre as árvores. Será que devo pagar porque fotografo essas coisas quando passo um dia inteiro na Serra de Sintra... ou noutro lugar qualquer? Então não é dever do Estado usar os nossos impostos para garantir que podemos fruir da natureza que nos rodeia?

É que no meu caso, muitas vezes, e isso sucede com outros fotógrafos que conheço, a paixão mistura-se com trabalho e andamos por ali simplesmente a cheirar o ambiente. Há dias que são fotograficamente nulos, mas que são ricos de outras experiências. Que, tanto quanto sei, são gratuitas... como o cair da tarde que fotografo da minha janela. Bem, agora que penso nisso, como tenho a Serra de Sintra na mira será que tenho de pagar? Já agora, um artista que pinta as suas telas usando as paisagens destes locais também vai ser obrigado a pagar? Ou somente o acto mecânico, fotográfico é punido? E que dizer do escritor que percorre trilhos na natureza para se inspirar? Também vai pagar? À página ou à hora?

Muitas vezes quando saio para fotografar não tenho uma meta definida. Vou com a Natureza. De forma imprevisível. É natural que para algumas deslocações se definam dias, metas, mas sobretudo quando se habita/trabalha perto de áreas protegidas vive-se ao momento,  até em função das condições atmosféricas. Acordo, a manhã está excelente, a luz também, eis-me a carregar tudo para o carro e correr para um sítio que prospectei há semanas e que calculo terá agora uma boa luz. Como é que isto se compadece de burocracias como o pedido, por fax, no dia anterior, de autorização para percorrer uma zona? Conto isto porque há anos tive uma pega com os responsáveis de uma área, que exigiam que lhes enviasse um fax dias antes a pedir para fotografar o nascer do sol numa zona, assinalando o dia... Ora se eu só sabia quando o ia fazer quando me levantasse de madrugada cedo e calculasse o que ia acontecer, como podia antecipar o fax? Esse tipo de coisas sugere-me que algumas pessoas que trabalham nestes serviços nunca devem sair de... centros comerciais.

Mas disperso-me. Voltemos à tabela, que continua a não resolver a questão das diferenças evidentes entre fotógrafos, cineastas e mais visitantes. Um fotógrafo passa despercebido, viaja com mochila, tripé e pouco mais. Uma equipa de filmagem ocupa um pouco mais, e tem por norma outra missão. E mesmo aí haverá que destrinçar entre quem filma para um documentário do mundo natural de quem chega e quer usar a zona para um anúncio. São utilizações distintas que devem ser taxadas de diferente forma. Aqui acho inteligente a nota que publiquei no anterior artigo, do serviço de parques norte-americano, que faz uma destrinça efectiva entre fotógrafos e produtores de vídeo (se bem que com as actuais minicams talvez sejam também necessário redefinir tudo isto). Esta lógica parece-me de seguir, e é a que acho correcta, porque uma equipa de filmagem faz sempre mais “volume” do que alguns fotógrafos. Aliás isso é reflectido na nota do NPS, que mesmo quando se trata de um grupo de 10 pessoas, cobra mais pelos cineastas do que pelos fotógrafos.

Acho que mesmo no caso de workshops, passeios organizados por fotógrafos, as tabelas dos Estados Unidos sugerem algumas opções que podem e devem ser consideradas por cá (existe mesmo documentação que permite associar custos à dimensão das empresas que operam em cada caso). Não me parece descabido que um fotógrafo que organiza um percurso na Natureza com uma dezena de pessoas (e por norma este tipo de acções não podem levar muito mais do que 10 pessoas/fotógrafo) contribua com algum do capital ganho nessa acção para o parque visitado. Acho que com bom senso e uma conversa aberta talvez se possa equacionar algo de bom para todos, responsáveis de áreas, visitantes e fotógrafos. Porque os fotógrafos são um veículo importante da vida dos parques, ao registarem, muitas vezes com tremendo esforço e muitas horas de paciência, imagens únicas que acabarão por divulgar a riqueza natural que nos rodeia. Mas que comercialmente,  por norma, nunca pagarão o investimento de tempo e dinheiro feito. Sobretudo se a montante começarmos logo a querer cobrar mais do que alguma vez se receberá no final.

Seria bom que quem elaborou a tabela começasse por falar com os fotógrafos no terreno. E não me refiro a organizações de pendor turístico que carregam gente pelos espaços verdes, mas a profissionais que vivem horas a fio em busca de coisas que mostram o Portugal natural.

Encontra na Fotodigital os pdf do ICNB. O original e o "corrigido". No artigo anterior aqui no blog encontra o link para tabelas do ICNB. de parques americanos e artigos sobre este tema.

 

Fotografia

Fotografia para fins editoriais ou comerciais. Vários temas: Aeronáutica, Arqueologia, História, Natureza, Paisagem, Tecnologia. Produção de reportagens com texto e imagens.

Reportagem

Reportagem fotojornalística de eventos, com produção de arquivo digital,  livros e diaporamas.

Webdesign

Produção de websites. Sistemas adaptáveis, modulares, geríveis pelo utilizador ou com contrato de manutenção.

Workshops

Da luz ao Lightroom. As novas ferramentas de edição fotográfica da Adobe permitem um fluxo de trabalho ímpar. Experimente-as ao vivo.

Consultoria

Consultoria em comunicação. Consultoria técnica na selecção de soluções para gestão de imagem, equipamento e software.

em breve

oficina de fotografia

You are here: Home Blog Pior a emenda que o soneto