Hoje, véspera de Natal, ao consultar a página do Expresso para confirmar se a minha galeria de fotos de Mafra estava online descobri uma série de fotos iguais às minhas mas assinadas por José Ventura. É um dos problemas da Internet. A facilidade com que tudo se troca. Mas nem todas as trocas são... casuais.
Irrita-me muito que a série de fotografias que demorei algum tempo a fazer acabe por ser vista por pessoas que as vão associar a outro. É um erro de que é difícil recuperar, mesmo que os erros aconteçam. O que um autor tem para vender é o seu nome e quando lho tiram é complicado depois repôr o mal já feito. Fica pois aqui a nota: se os leitores encontrarem fotos da iluminação do Palácio de Mafra neste Natal de 2009 no Expresso, elas são minhas, mesmo que porventura tenha a assinatura de José Ventura.
Estes erros, que parecem suceder amiúde na Internet, têm a vantagem de poder ser corrigidos rapidamente, desde que haja vontade, por quem é responsável pela edição de multimédia que a Internet representa. Mas a verdade é que a rapidez com que tudo sucede nessa mesma Internet/Web faz com que o erro se espalhe como rastilho ardendo mesmo antes de ser corrigido. Ao visitar a galeria do Expresso em busca das minhas fotos - e ficando logo mal-disposto com este "presente" de Natal do jornal para mim (ou de quem quer que me tenha trocado o nome...), tentei contactar alguém no jornal. A caixa de correio de multimédia está a abarrotar e recusa mais emails. Pois, é Natal, já se piraram... Os telefones vão dar a lado nenhum, pelo que não vou conseguir resolver isto antes de passar esta febre de festa. Como é que o Pai Natal vai acreditar que fui eu que fiz as fotos de Mafra?
Ah, mas o que vi na página do Expresso foi outra coisa: existe por lá um "curso de cidadão-repórter", que visa angariar colaboradores para a vertente online - acho eu... - do jornal. É giro esta moda actual de conseguir que de telemóvel em punho todos sejam jornalistas. Estou a imaginar a cena: quando o Chiado ardeu, a malta dos jornais correu para lá de máquinas e bloco de notas em punho, esforçando-se por conseguir recolher material para as edições do dia, que na melhor das hipóteses só sairiam dali a algumas horas, ou do dia seguinte. Hoje, sem gastar um tostão, uma empresa jornalística consegue ter um fluxo de informação ao minuto, fotos e dados, que até faria inveja à TSF, que na altura do Chiado brilhou com as suas transmissões via rádio e conseguiu bater os jornais. Os tempos mudaram e é por isso que os jornalistas estão cada vez menos seguros do e no que fazem: todos são jornalistas. E à borla. Dez minutos de fama...
Não é só o Expresso a fazer isto o Público anda a pedir às pessoas que contem os buracos da respeciva rua, as televisões pedem que lhes enviem fotos dos temporais, todos, mas todos, pedem qualquer coisinha. E as pessoas dão... pelos tais minutos de fama. O resultado previsível: é mais fácil dispensar jornalistas, porque a quantidade de fontes de informação é maior. Pois... Trocam-se os profissionais pelo público arvorado em cidadão-repórter.
É talvez por causa de tudo isto - e as conversas são como as cerejas - que o Sindicato dos Jornalistas lançou dia 23 de Dezembro um comunicado por causa do que se chama, agora, "publicidade contextual", usado pelo jornal Destak em textos jornalísticos no seu sítio na Internet. O SJ alega que "o exercício da chamada 'publicidade contextual' viola claramente as normas legais aplicáveis à publicidade nos meios de comunicação social, ao não separar a mensagem publicitária do conteúdo editorial" e salienta que "a referida forma de 'publicidade' recorre a um dispositivo de ligação electrónica inserida no texto jornalístico, produzindo um efeito de surpresa ao fazer surgir uma janela electrónica em resultado da mera passagem do 'rato' do computador sobre a palavra ou a expressão usadas em tal texto como suporte à referida ligação, como explica a própria Empresa na informação difundida ontem (cópia entregue à ERC) e como o SJ demonstrou através de vários exemplos de notícias reproduzidas num anexo de suporte à participação."
Para o SJ "é manifesto que tal prática constitui uma clara violação da regra da identificabilidade da publicidade, sendo obviamente intrusiva nos conteúdos jornalísticos e quebrando ostensivamente o dever de lealdade dos meios de informação para com os leitores". E o comunicado remata com uma indicação: "É manifestamente ilegítima a manipulação de textos jornalísticos como suporte publicitário, pondo gravemente em causa a credibilidade do trabalho jornalístico, tanto dos jornalistas ao serviço da publicação em causa como dos profissionais ao serviço das agências noticiosas que lhes fornecem serviço."
Vou estar atento a ver o que sai desta chamada de atenção, porque a verdade é que esta "publicidade contextual" é algo que se tem disseminado por toda a Internet, pelo que não é uma novidade, mesmo se é agora que começa a surgir em Portugal. Com Destaque... segundo parece. Esta invasão "multimédia" é um sinal mais de como tudo está a mudar a uma velocidade que por vezes nos surpreende. É irritante levar com uma janela de publicidade ante cada palavra que se toca com o rato, mas um dia lá chegaremos. Um pouco como aquelas pesquisas que fazemos no Google e que nos devolvem a par com informação, tantas vezes errada, mil sugestões de anúncios que de algum modo estão associados - ou não - ao que pesquisamos. Mas isso é história "multimédia" para outro dia. Agora vou ficar aqui a pensar em quando é que na Inrternet, tão rápida, alguém corrigirá o nome que surge por baixo das fotos da iluminação de Natal de Mafra. Porventura em breve... Ou talvez não.
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