No final dos anos 80 escrevi um longo artigo sobre Janas para a revista Sábado. O nascimento do meu segundo filho, nos anos 90, afastou-me, no 17 de Agosto, do ritual pagão em templo cristão. Voltei atento, 16 anos depois, para verificar que tudo continua na mesma.
É de fé que se trata quando se fala em Janas. A capela circular de São Mamede de Janas, longe da povoação, perto de bosques que convidam a passeatas, é solitária por natureza, como se quer de um orago que cuida de gados. Mas a 17 de Agosto o terreiro enche-se de cor e folguedos, plásticos e oração, num mesclado que se adaptou aos tempos mas não perdeu a essência que o faz viver. Foi em busca das imagens desse sentir que passei o 17 de Agosto, aniversário do meu filho mais novo, em Janas.
Estou ainda, enquanto escrevo estas linhas, a preparar um leque de fotografias a colocar na área editorial do meu sítio, na esperança de alguma publicação nacional (ou não) se interessar por esta história, que não é a que vem nos livros oficiais - que de facto continuam a usar o mesmo discurso anterior às escavações da década de 80, que tudo mudaram... - e que escreverei para juntar às fotos (o meu contacto editorial é Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar ) completando uma história que é minha de regresso mais constante, mas é também e partida do padre João, que fez este ano a sua última benção de gado.
Passei por Janas de fugida há dois anos, e vi-o por lá a benzer o gado, num dia menos bem-disposto, mas nesta derradeira viagem pareceu-me feliz. Tanto que até passou pelas brasas (ou meditava) na capela, enquanto o som de orações se misturava com o acordeão tocado no palco exterior. Não o fotografei nesse momento de retiro, porque pesei o interesse documental e a invasão da privacidade e achei que uma não valia a outra. Preferi ficar-me pela foto do seu discurso de despedida, mãos erguidas para a audiência, que me pareceu ser o "boneco" da tarde no que toca a despedida. Pode ver a foto na secção editorial.
Este registo fotográfico não é completo e deixou de lado alguns aspectos mais vistosos, como a procissão, que apesar de bonitos para o olhar se revelam por vezes comnplexos (e desordenados) de congelar num fotograma. A luz crua daquela hora do dia, caindo entre os toldos das barracas de comércio em torno da capela ou filtrando-se por entre os pinheiros na zona dos cercados dos animais cria zonas de claro escuro que nem um flash consegue resolver de forma eficaz... todo o tempo. E o gado já não sobe para os círculos em torno da capela, esperando nos redis que a água benta do padre os proteja de maleitas por todo o ano seguinte.
Jogar com a luz acaba por ser um desafio em Janas. fiz isso de algum modo, assim como joguei o jogo da paciência, algo que se deve ter num evento deste tipo. Por isso mesmo sentei dentro da capela por muito tempo, para fotografar os fiéis em momentos de oração. Procurava uma imagem marcante e descobri-a na luz coada através de uma janela adornada com um vaso com longas folhas verdes, que me davam um toque de cor. Esperei, esperei, até que alguém dos muitos que passavam se ajoelhou naquele ponto e ficou por instantes numa prece. Foi o tempo de três fotos de que acabei por seleccionar uma, sem ninguém a passar na ombreira da porta, que me serve de referência para esta festa de luz (LUZ?)
Esta é a minha imagem chave de S. Mamede de Janas. Não é a foto documental que nos diz de imediato do que se trata, mas como peça de abertura de um artigo é um excelente exemplo que posso associar a outros que, juntos, formam a história. Confirme se é mesmo assim quando passar os olhos pela página da secção Editorial dedicada a este tema.
Janas é mais do que a festa visível, e é sobre isso que o artigo a escrever se debruça. Ainda estão por resolver os mistérios de um local cujo nome pode ter muitos significados, até o de Janus, o deus biface. Uma estória possível apra ali, até porque do outro lado da serra, num ponto diamatralmente oposto, fica Janes, terceiro ponto de um triângulo que tem como extremo o Cabo da Roca. Lendas, histórias para contar à noite junto ao fogo...
NOTA: leia as notas na secção Editorial para saber mais.
| < Anterior | Seguinte > |
|---|






